quinta-feira, 13 dezembro 2018
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Somos decoupling, a culpa não é do exterior

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A unanimidade no mercado financeiro sempre foi um sentimento ou expressão muito perigoso. Os fatos recentes envolvendo os preços dos ativos de risco brasileiros, em especial as ações, deixaram muitos investidores confusos.

Na semana passada nenhum profissional sério de mercado (analistas, economistas, gestores de recursos, entre outros) ousava dizer que a eleição presidencial estava decidida. Muitos consideravam que a chance de vitória de Bolsonaro era elevada, mas ninguém ousava ter convicção, até porque Haddad vinha crescendo nas últimas pesquisas de intenção de votos, adicionando o peso da imprevisibilidade justamente na reta final.

Vários profissionais que trabalhavam com o cenário base de vitória de Bolsonaro no segundo turno afirmaram haver espaço para alta da bolsa e queda do dólar no primeiro pregão após o desfecho das eleições. Posto de outra forma, ninguém ousava prever forte queda da bolsa e elevação do dólar em caso de vitória do candidato Bolsonaro no dia seguinte após as eleições.

Foi o que aconteceu. A famosa lua de mel, ou o esperado rali, virou lenda. Surpresos com o tombo do Ibovespa, estes mesmos profissionais apontaram a culpa no exterior. A bolsa brasileira não subiu porque foi arrastada para baixo pelas demais praças financeiras mundiais. Essa tese é completamente furada pelo gráfico abaixo:

A linha vermelha mostra o desempenho do MSCI Emerging Market (ETF de mercados emergentes mais famoso do mundo) e a linha preta mostra o desempenho do Ibovespa. Pode-se notar claramente um decoupling (descolamento) iniciado em junho de 2018 favorável ao Ibovespa.

Enquanto o MSCI Emerging Market segue dentro de uma tendência expressiva de correção neste ano, o Ibovespa, por outro lado, interrompeu a trajetória de queda no mês de junho e voltou a subir forte, se aproximando novamente da máxima histórica. A distância entre o final da linha preta versus final da linha vermelha mostra a relevância do decoupling.

Não é um simples ruído de curto prazo, provocado por um soluço pró-Ibovespa, mas sim um descolamento de tendência de mais de 4 meses. Em junho deste ano, o mercado tinha alguma esperança de que Geraldo Alckmin poderia ser eleito. O candidato do PSDB, intitulado queridinho do mercado, teve um desempenho decepcionante desde as primeiras pesquisas eleitorais, não chegou, sequer, ter chance de disputar o segundo turno, mas mesmo assim o decoupling continuou.

Enquanto nós, brasileiros, acompanhávamos de perto a injusta polarização entre petistas e anti-petistas inflada pela mídia, o mercado mirava no macro, na mudança do discurso, na onda da renovação, nos temos polêmicos que mal se podia comentar no passado, mas que hoje estão sobre a mesa para discussão aberta. Embora possa transparecer que o país estava divido entre dois extremos, as propostas dos candidatos, de forma geral, remetiam ao centro e refletiam o sentimento de que algo precisa ser feito democraticamente (com endosso do voto) para sairmos do atoleiro.

Esse algo será feito. O Brasil não iria virar uma Venezuela com Haddad nem vai se tornar uma Dinamarca com Bolsonaro. O Brasil vai continuar problemático e vulnerável, mas também vai tentar sair do atoleiro político, econômico e fiscal. A diferença está apenas na cor do rebocador. Medidas serão tomadas e os resultados surgirão no futuro.

Apesar de não se ouvir mais falar em lua de mel e/ou rali nos preços dos ativos depois do trauma desta segunda-feira, o Brasil, de fato, é o maior case de decoupling global neste momento e possui condições técnicas e macroeconômicas de continuar em terreno bullish.

O tombo desta segunda-feira é nada mais nada menos do que uma obra prima do senhor mercado, pouco admirada pela multidão. Os preços podem cair ou subir, contrariar a unanimidade, surpreender, com ou sem motivo, simplesmente porque o mercado é soberano.

As bolsas de valores recuaram nesta segunda-feira, mas esse é um movimento que começou, em especial sobre as praças emergentes, no início deste ano e não hoje. Se o Ibovespa estivesse sendo contaminado, na mesma intensidade, pelo movimento observado nas demais praças financeiras mundiais, estaria sendo negociado, neste momento, aos 65.000 pontos, em linha com o MSCI Emerging Market.

Portanto, não há razão para apontar o dedo enfurecido ao exterior. A foto de hoje saiu borrada, mas o filme continua bonito.

Iniciou carreira no mercado financeiro brasileiro em 2001 através do Banco BCN, onde desde então vem acompanhando e estudando o mercado nacional e internacional. Já publicou um livro voltado para o mercado de capitais e hoje trabalha como assessor de investimentos na JB3 Investimentos.

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Anônimo

Palmas, palmas e mais palmas!!!!