quinta-feira, 13 dezembro 2018
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G20 em Buenos Aires, muita pólvora no barril

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Mauricio Macri, durante cerimônia do G20 em Buenos Aires. Foto: Reuters

Pouco se comenta no ambiente de mercado financeiro sobre a reunião de cúpula deste ano do G20, a ser iniciada nesta sexta-feira em plena Buenos Aires, capital de um país emergente destruído pela ignorância de seus políticos do passado e que, mais recentemente, experimentou o gosto amargo da fúria do Sr. Mercado.

Esta será a vigésima reunião da história do G20, porém a primeira a ser realizada em território latino-americano. O próprio calendário do G20 é uma triste demonstração de nossa importância para o mundo.

Realmente é incomum observar ausência de ansiedade do mercado para uma reunião do G20, que em tese deveria ser muito significativa. A falta de comentários reforça a hipótese de baixa importância econômica deste encontro em particular. Talvez os líderes políticos estejam mais ansiosos para degustar um bom churrasco bancado pelas Lebacs do BCRA (Banco Central da Argentina), terminando a noite de sábado em ritmo de tango, do que anunciar alguma medida/acordo relevante.

Teoricamente os líderes políticos devem discutir nesta reunião do G20 pontos relevantes para o desenvolvimento sustentável a nível global, além de amenizar tensões geopolíticas criadas recentemente. Entretanto, na prática, este encontro pouco comentado pode acabar se tornando em um mero palanque para Donald Trump reforçar seu discurso de America first.

Ninguém parece dar ouvidos aos berros do FMI (Fundo Monetário Internacional) sobre os impactos negativos ao comércio global em função da onda protecionista e da própria expectativa de desaceleração do crescimento para os próximos anos. O PIB global pode sofrer uma queda de 0,5%, o que seria grave o suficiente para criar novas crises em países macroeconomicamente vulneráveis (não é preciso dar nomes aos bois depois das amostras grátis distribuídas pelo Sr. Mercado em algumas moedas de países emergentes).

Donald Trump vai estar presente no G20 apenas para passar seu recado pessoalmente ao líder chinês, Xi Jinping. Não houve, até o momento, consenso ou mesmo aproximação entre ambas as partes a fim de evitar a construção de barreiras ao comércio. Em Buenos Aires, Trump vai abrir seu caderninho de tarifas e Xi Jinping vai tentar passar uma imagem de resistência na defesa, porém ao mesmo tempo jogando por mais tempo.

Os chineses precisam lutar para que o Sr. Mercado continue com os olhos grudados nas reservas gigantescas de sua autoridade monetária. Essa atenção não pode ser desviada para a qualidade do crédito local/risco de inadimplência (talvez, um subprime made in China), nem mesmo para os impactos negativos a serem criados por um eventual pouso forçado do PIB em caso de redução das exportações para os Estados Unidos.

Trump parece estar determinado a reduzir o significativo desequilíbrio desfavorável na balança comercial contra os chineses, mesmo que para isso tenha que sacrificar alguma coisa (taxa de desemprego, inflação ou crescimento) em seu macro doméstico. A perda do outro lado tende a ser bem maior. A desvantagem está com os chineses por conta da vulnerabilidade acumulada internamente em anos de crescimento artificial, portanto, no jogo de poker, os norte-americanos tem mais margem para blefar, e menos a perder, do que os chineses.

Também não há perspectiva de algum avanço para os europeus, que estão começando a sofrer com as tarifas punitivas de Trump sobre o aço e automóveis. As negociações lideradas pelo pouco amigável Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, fracassaram totalmente. Juncker queria a volta das condições paradisíacas de comércio do passado, sem ceder ou abrir brecha para negociação. A defesa firme dos europeus deixou tudo do jeito como está.

É possível que o encontro de Donald Trump com Vladimir Putin no G20 (portas fechadas ou abertas, pois oficialmente ainda não foi confirmado) roube tempo dos europeus para a Rússia, onde as questões comerciais tendem a ficar de lado em meio as aventuras militares de Putin em pleno quintal dos alemães.

Os russos alvejaram e capturaram três embarcações militares ucranianas no estreito de Kerch, perto da Crimeia, alegando invasão do espaço marítimo da Rússia, em mais uma provocação contra a Europa e a Otan.

Os europeus estão perdidos no quadro comercial e geopolítico, usando até mesmo o BCE como porta-voz de seus discursos na tentativa de alcançar audiência. Os russos estão pouco se importando para as sanções de baixo impacto adotadas desde a anexação da Crimeia e continuam ocupando destaque no âmbito geopolítico. Os norte-americanos estão jogando dardos nas relações comerciais com vários parceiros globais, a estratégia é fazer com que as medidas que acertarem o alvo (melhorando o fluxo para os Estados Unidos) compense as medidas que passarem longe do alvo. Os chineses são a bolinha vermelha do alvo no momento e lutam para conseguirem se esquivar para uma zona mais distante através de um aperto de mão meio fake com Trump neste sábado.

Muita pólvora para um barril que talvez não vá explodir neste momento, apesar da pouca coincidência com a sede escolhida para este ano. Entretanto, gradualmente, o cenário global vai deixando de lado os longos anos de bonança e tranquilidade e ficando cada vez mais nebuloso para a virada da década.

Iniciou carreira no mercado financeiro brasileiro em 2001 através do Banco BCN, onde desde então vem acompanhando e estudando o mercado nacional e internacional. Já publicou um livro voltado para o mercado de capitais e hoje trabalha como assessor de investimentos na JB3 Investimentos.

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Jairo
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Jairo

ótima análise