quinta-feira, 5 dezembro 2019
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FED pressionado a sinalizar corte de juros

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Foto: Drew Angerer/Getty Images

Não bastou tirar novas elevações da FFR (Federal Funds Rate) do radar, revisar o juro neutro para baixo, nem modificar o processo de desalavancagem do balanço. A guinada dovish do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), iniciada em dezembro/2018, não foi suficiente para melhorar o humor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A pressão para sinalização de futuros cortes na FFR ainda neste ano (ou início do próximo) aumentou significativamente bem na véspera da importante reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central dos Estados Unidos, a ser encerrada na tarde desta quarta-feira.

Um relatório da Bloomberg divulgado nesta última terça-feira revelou que a Casa Branca explorou no mês de fevereiro deste ano a legalidade de rebaixar Jerome Powell, atual presidente do FED. Ao que transparece, a intenção era destituir Powell da presidência do FED, realocando para um cargo mais baixo na diretoria.

A Bloomberg afirmou que não teve acesso ao resultado do estudo realizado pela Casa Branca em fevereiro. Entretanto, a conclusão parece clara, não somente porque Powell se manteve no cargo, mas por conta da constitucionalidade. Conforme Federal Reserve Act, seção 10.2, os membros do Comitê só poderão ser removidos de seus respectivos cargos por justa causa e não por vontade política.

Uma remoção por justa causa é comumente conhecida como ato gravíssimo, como um flagrante de crime, por exemplo, porém, jamais por desacordo da Casa Branca com a política monetária do Banco Central.

Essa não é a primeira vez que um presidente dos Estados Unidos tenta demitir um membro da diretoria do FED. Em 1940, o então presidente Franklin Roosevelt demitiu um membro da diretoria do FED, citando visões divergentes de política monetária. Logo na sequência, a Suprema Corte revogou a decisão de Roosevelt por unanimidade, alegando que os executivos do FED só podem ser removidos de seus mandatos por justa causa.

É possível estimar que a ordem de demissão apresentada no relatório da Bloomberg partiu de Donald Trump, que já algum tempo vem demonstrando publicamente seu descontentamento contra Powell.

Ano passado Trump criticava Powell por conta das elevações na FFR. A taxa básica de juros parou de subir e as perspectivas de novas elevações sumiram do mapa. Mas isso não parece ter sido suficiente para o presidente dos Estados Unidos. Esse ano Trump está criticando Powell por não cortar a FFR.

A pressão para sinalização de cortes na taxa básica de juros norte-americana aumentou ainda mais nesta última terça-feira após o presidente do BCE (Banco Central Europeu), Mario Draghi, ter afirmado que a autoridade monetária poderá oferecer mais estímulos se a inflação não acelerar na zona do euro, que por sinal alcançou 1,2% na base anual em maio, nível mais baixo em um ano e meio.

Trump reagiu imediatamente após as declarações de Draghi, sugerindo que a autoridade monetária europeia está atuando com uma estratégia de política monetária ainda mais dovish para ganhar mercado com a desvalorização do euro sobre o dólar.

EURUSD

O gráfico acima revela que, de fato, o euro está se desvalorizando frente ao dólar desde o início de 2018. Apesar de Draghi afirmar que a política monetária não tem objetivo de afetar o câmbio, a Europa tem conseguido se beneficiar com o deslocamento do euro frente ao dólar, tornando seus produtos mais baratos no mercado externo.

Pode até não ser realmente o objetivo do BCE, mas está claro que, inevitavelmente, a estratégia de política monetária afeta diretamente o deslocamento da moeda. Trump entende que o BCE está atuando para afetar o euro e, agora, pressiona o FED a fazer o mesmo pelo dólar.

Por conta disso, a pressão para sinalização de corte na taxa básica de juros norte-americana aumentou significativamente. Banqueiros centrais no mundo inteiro estão operando com estratégias dovish, a diferença é que alguns estão pisando mais no acelerador, outros menos.

Trump quer que o FED pressione mais o acelerador e, para conseguir isso, está jogando política com Powell. Aproveitando-se do ambiente favorável no mercado para políticas dovish, Trump está em vantagem na disputa, mesmo com o Federal Reserve Act garantindo a cadeira de Powell como chair da instituição. A pressão é tamanha que, uma resposta negativa de Powell (contra o viés de Trump) poderá criar volatilidade no mercado, já que boa parte dos players esperam uma atitude do FED para possível corte na FFR no médio prazo.

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