domingo, 22 setembro 2019
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A primeira vítima da guerra comercial

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Chanceler da Alemanha, Angela Merkel | Foto: Getty Images

Desde o início do ano passado, o Índice Gerente de Compras global, calculado pelo JP Morgan em parceria com o Instituto Markit, vem demonstrado mês a mês desaceleração no ritmo de expansão da atividade manufatureira global.

Enquanto o mundo acompanhava com cautela os indicadores de desaceleração econômica, alguns líderes políticos tentaram defender suas respectivas economias. Ocorreram intervenções cambiais diretas e indiretas, cortes de compulsório, criação de novas linhas de crédito e as políticas monetárias voltaram a ficar mais dovish.

Nada muito relevante comparado à potência do passado, mas de qualquer forma houve (e ainda há) tentativa de defesa preventiva. Apesar de o foco do noticiário estar sobre a tensão comercial entre China e Estados Unidos, como se fosse um cabo de guerra para saber quem vai cair primeiro, a primeira vítima da guerra comercial é a toda poderosa Alemanha.

A economia mais importante da Europa está afundando em velocidade acelerada, fato, por sinal, pouco comum. A intensidade de contração atual do índice gerente de compras da Alemanha é comparável somente aquela observada no crash do subprime e na crise da dívida da zona do euro.

PMI Alemanha

A atividade industrial alemã alcançou no mês de julho/2019 o nível mais baixo registrado desde meados de 2012, aproximando-se da mínima registrada no pior momento da crise da dívida da zona do euro. A inclinação da curva de desaceleração manufatureira, transformando-se em contração (ao perder o patamar de 50 pontos), é tão agressiva que dispensa diagnósticos mais técnicos.

A situação é grave ao ponto de arrastar a Alemanha para o primeiro ciclo de recessão depois de uma década de crescimento praticamente ininterrupto. O alerta de recessão foi confirmado nesta última segunda-feira pelo Bundesbank (Banco Central da Alemanha), basicamente influenciada pela significativa queda das exportações.

Com a possibilidade de um Brexit desorganizado (sem acordo) e acirramento das disputas comerciais entre diversos países, a Alemanha foi o primeiro país a absorver os choques externos negativos, que pela primeira vez em muitos anos superaram os benefícios da fraqueza do euro.

Correm boatos na Europa de que o governo alemão já se prepara para reforçar a economia com medidas de estímulo fiscal. Isso significa que o país-exemplo de austeridade no mundo está prestes a jogar a toalha. O endividamento da Alemanha caiu de 83% PIB em 2010 para cerca de 60% PIB em 2019, voltando a ficar abaixo até mesmo dos níveis registrados no pré-subprime.

O baixo endividamento, combinado com uma taxa de juros cada vez mais negativa nos títulos da dívida soberana (-0,65% no título com vencimento em 10 anos, nova mínima histórica), criou um cenário quase irresistível para que até mesmo os alemães voltem a afrouxar o fiscal.

Neste último domingo, o próprio ministro das Finanças, Olaf Scholz, apontou que o governo alemão poderia ter gastos extras de 50 bilhões de euros em caso de crise econômica. Desta vez, os alemães estão levando a sério a possibilidade de aumentar o endividamento, cedendo às pressões de diversos outros países europeus, pois há um temor de que a recessão possa ser grave o suficiente para provocar uma disparada da taxa de desemprego.

A possibilidade de os alemães usarem as chaves empoeiradas do cofre tem colaborado para uma corrida cada vez mais acentuada em bonds europeus, o que tem provocado outro efeito colateral de transbordamento de liquidez para outros continentes.

As problemáticas Espanha e Portugal, por exemplo, estão pagando apenas 0,15% e 0,16% no bond com prazo de 10 anos, respectivamente. Na Suiça, a taxa de juros no título de 10 anos furou sem muita cerimônia o patamar de -1% ao ano. Novas mínimas históricas estão se renovando em outros países, como Holanda (-0,53%) e França (-0,36%), revelando que o mercado pode estar tentando se antecipar ao poder de fogo dos alemães.

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Paulo Miranda
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Paulo Miranda

Vamos ser bem claros,a próxima crise vai ser bancária,ou seja,vamos repetir 2008 As piores crises economicas documentadas historicamente tem origem em crises bancárias Mas desta vez vai ser mais grave,por que vai envolver os bancos centrais também Os bancos comerciais estão com o balanço inflado de títulos públicos e empréstimos corporativos Quando a bolha dos bonds e de títulos corporativos explodir,estes ativos tombarão de preço,ou seja,vai impactar o balanço patrimonial dos bancos Resumidamente,vão quebrar da noite para o dia O sistema bancário estará quebrado Deveriam entrar os BCs,só que estes também estão com os balanços patrimoniais inflados de títulos públicos… Read more »